quarta-feira, 7 de outubro de 2015

1705 - POEMA DO MENINO JESUS - FERNANDO PESSOA

1705

POEMA DO MENINO JESUS

                                                    (Veja também no youtube)

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino.
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça.
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas....
Um velho chamado José, que era carpinteiro.
E que era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o espírito santo andava a voar
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol 
E desceu pelo primeiro raio que  apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esqAuece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo .coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no é estúpido como a Igreja Católica.
Dis-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou  --
»Se é que ele as criou, do que duvido«  --
Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória.
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada.
E por isso se chamam seres»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

----------------------------------------------------------

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
É por isso  é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três  pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre. 
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu uovido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorrí, porque tudo é incrível.
Ri dos dos reis e dos que não são reis
E tem pena de ouvir falar nas guerras,
E dos comércios, e dos navios 
Que ficam fumo ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta aquela verdade
Que uma flor tem ao florescer 
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales 
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deit-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu .

Ele dorme dentro de minha alma
E às vezes acorda noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

------------------------------------------

Quando eu morrer, filhinho.
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro  da tua casa
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde.
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos  teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

--------------------------------------------------

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Porque razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

FERNANDO  PESSOA

















domingo, 4 de outubro de 2015

1704 - THE TRAVAIL OF PASSION - W. B. YEATS

1704

THE TRAVAIL OF PASSION

When the flaming lute-thonged angelic door is wide;
When an immortal passion breadthes in mortal clay;
courge,Our hearts endure the scourge, the plaited thorns, the way
Crowded whit bitter  faces, the wounds in palm and side,
The vinagar-heavy sponge, the flowers  by Kedron stream;
We will bend down and loosen our hair over you,
That it may  drop faint perfume, and he heavy whith dew,
Lilies of death-pale hope, roses of passionate dream.

                               ***

Quando a flamejante e angélica porta se abre num
                                                                 tumulto de alaúdes,
Quando imortal paixão respira em mortal argila,
O nosso coração o flagelo, a coroa de espinhos, o caminho
Povoado de rostos amargos, a ferida das mãos, 
                                                                a ferida dos flancos,
A esponja pesada de vinagre, as flores junto ao rio Kedron;
Sobre ti inclinados soltaremos os cabelos
Para que leve perfume se desprenda, cheio de orvalho,
Lírios da esperança em sua mortal palidez, rosdas de 
                                                                    apaixonado sonho.

W. B. Yeats

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

1703 - TORRE DE MONSANTO - CASTELO BRANCO


1703

Torre de Lucano ou do Relógio - Monsanto, Idanha-a-Nova, Castelo Branco (Portugal).

Antiga torre sineira que ostenta o símbolo que tornou Monsanto a "Aldeia mais Portuguesa de Portugal", o que para os monsantinos se reveste de forte simbolismo. A encimar esta construção encontra-se a réplica do Galo de Prata, obtido no concurso do Serviço Nacional de Informação em 1938.



terça-feira, 8 de setembro de 2015

1699 BARRAGEM DA CANIÇADA - RIO CÁVADO

1699

BARRAGEM DA CANIÇADA




Portugal+

Compartilhada publicamente  -  Ontem à(s) 18:35
Albufeira da Barragem da Caniçada [Rio Cávado] - Terras do Bouro, Minho (Portugal).

A Barragem da Caniçada, no rio Cávado foi construída no quadro do plano dos aproveitamentos hidroeléctricos desta importante bacia, em 1954. A sua albufeira estende-se por muitos quilómetros, que é considerada uma das mais bonitas de Portugal, marca parte da fronteira sul do Parque Nacional da Peneda-Gerês, uma das Regiões Naturais de Portugal mais atractivas, considerada pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera.

+Foto de autor não identificado+
598
65