sábado, 15 de janeiro de 2011

04-Pensamentos

04-"No mundo há riqueza suficiente para satisfazer as necessidades de todos, mas não para alimentar a ganância de cada um"
Mahatma Gandhi

"Paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgénico para a alma. As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios fazendo-os navegar, outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas."
Voltaire

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

05-Al Berto

05-Cromo

andamos pelo mundo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem

o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e destribuída assim
através da língua ... gratuitamrent
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel

enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares
e ao acordar ... a incoerente cidade odeia
quem deveria amar

o tempo escoa-se na  música silente deste mar
ah meu amigo...como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar

Al  Berto, in ´Salsugem`

domingo, 9 de janeiro de 2011

06-Contra/Corrente

06-Falem baixinho

Falem baixinho. Critiquem com doçura. Façam vénias. Não se indignem, que parece mal. Agradeçam o pão que o diabo amassou. Contenham as raivas (mesmo quando as injustiças são clamorosas). Não olhem para cima. Sejam gratos a quem programa a infelicidade. Repitam muitas vezes que "o mundo sempre foi assim", "o que é que há-de fazer?", "sempre, desde que a terra é terra, houve ricos e pobres", digam que "as desigualdades e a fome são coisas naturais, que devemos olhar com resignação - Cristo não morreu na cruz? Parece ser essa ladainha com que nos encomendam os dias que aí vêm, que já não têm direito a amanhãs que cantem, nem aceitam acenos de esperança. Assim se programa o conformismo, assim se reproduz o unanimismo, assim se semeia a apatia cívica, assim se amordaça o falar.

Penso isto, e dou comigo a ler a crónica do Manuel António Pina ("Fazer pela vidinha") que trata destas perplexidades que emergem do tempo que vamos vivendo "com a cabeça entre as orelhas", como diria Sérgio Godinho. Então, como sempre, vale ler a crónica do Pina: " O "Sensato" concelho de Cavaco  Silva para comermos e calarmos de modo a que "os nossos credores" não se zanguem connosco e nos castiguem com juros cada vez mais altos espelha uma cultura salazarenta de conformismo que, sendo muito mais antiga que Cavaco, ele representa na perfeição, até nos seus, só na aparência contraditórios, repentes de arrogância. Quando Cavaco nos recomenda que amouchemos pois "se nós [aos ´nossos credores´] dirigimos palavras de insulto, a consequência será mais desemprego para Portugal", tão só repete à actual circunstância , a "sensata" e canónica fórmula do "Manda quem pode, obedece [no caso, cala] quem deve". Trata-se de uma atávica cultura em que a vida é vidinha, a crítica deve ser sempre "construtiva" e colaborante, os trabalhadores, por suave milagre linguístico, se tornam "colaboradores" (e se colaboracionistas melhor ainda) e servilismo e acriticismo são alcandorados a virtudes cívicas. Porque é assim que faz pela vidinha, de joelhos. Estejamos, prtanto, gratos às "companhias de seguros, fundos de pensões, fundos soberanos, bancos internacionais e cidadãos espalhados por esse mundo fora" que nos emprestam a juros usurários, pois eles apenas querem o nosso bem. E, como o bom Matateu numa famosa entrevista a Batista Bastos, digamos tudo o que quizermos, excepto dizer mal, "porque [cito de cor] Matateu não diz mal de ninguém".

Não dizer mal de ninguém. Olhar para o lado da vida.

FPN-JF

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

07-FRASES

07-Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes e extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.
Jorge Luís Borges


Deixei de me preocupar com o tempo. Não é uma linha, é um vento, uma onda do mar que é preciso seguir ( ... ) O único tempo real é acordar de manhã, esfregar as mãos e dizer: vamos viver este dia
Rui Chafes


Há um tempo para partir, mesmo quando não um lugar certo para ir.
Tennessee Williams


Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquante dure
Vinícius de Morais




 La vie est une phrase interrompue
Victor Hugo

Penso muitas vezes no dia em que vislumbrei o mar  pela primeira vez. O mar é grande, o mar é imenso, o meu olhar vagueava pela praia fora e esperava ser libertado: mas lá no fundo, porém, estava o horizonte. Por que razão tenho eu um horizonte? Da vida, eu esperei o infinito.
Thomas Mann

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

08-Poema do futuro

08-Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
deslisam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Som da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigos
daquele corpo imóvel , exhumado
da vala do poema.

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outrras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.

Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a terra.
                                       António Gedeão

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

09-Presidenciais

09-Hoje reforço uma decisão e admito um erro. Reforço a decisão de apoiar Manuel  Alegre sem reservas, e admito um erro de casting nas últimas eleições presidenciais quando votei Mário Soares. Vamos por partes.
Eu tenho um objectivo: derrotar Cavaco Silva. Considero Cavaco um político inteligente, que se faz passar pelo anti-político ("deixem-me trabalhar"). Cavaco conhece bem os portugueses (Salazar também conhecia !...), qualquer coisa contra a política e os políticos é bem vinda, logo é só deixando crescer a ideia que se chegou e se está na política para morarizar. Eu não gosto da personagem, nem do seu papel. Nunca gostei.
Com este objectivo, recordo derrotar Cavaco, deveria ter feito uma análise mais cuidadosa nas últimas eleições presidenciais, não o fazendo deixei-me levar pela emoção: votei Soares. Com isso, não forcei uma segunda volta e consequentamente levei à vitória de Cavaco.
Eu apoio Manuel Alegre, porque a sua candidatura satisfaz, para mim, dois requisitos: 1) é uma candidatura de oposição a Cavaco (e isto basta para mim) e 2) ele será, se for eleito, melhor Presidente que Cavaco (o que até admito, não será difícil).
Com os olhos postos no futuro, Manuel Alegre, será o presidente de todos os portugueses, e não apenas de alguns, como durante bastante tempo o actual Presidente foi.


SEGUEM-SE DOIS POEMAS DE FERNANDO PESSOA:
                              

         SIM, É O ESTADO NOVO ...

Sim, é o Estado Novo, e o povo
Ouviu, leu e assentiu.
Sim, isto é um Estado Novo
Pois é um estado de coisas
Que nunca antes se víu.


Em tudo paira a alegria
E, de tão íntima que é,
Como Deus na Teologia
Ela existe em toda a parte
E em parte alguma se vê.


Há estradas, e a grande Estrada
Que a tradição ao porvir
Liga, branca e orçamentada,
E vai de onde ninguém parte
Para onde ninguém quer ir.


Há portos, e o porto-maca
Onde vem doente o cais
Sim, mas nunca ali atraca
O Paquete  «Portugal»
Pois tem calado de mais


Há esquadra ... Só um tolo o cala,
Que a inteligência, propicía
A achar, sabe que, se fala,
Desde logo encontra a esquarda:
É uma esquadra de polícia.


Visão grande! Ódio à minúscula!
Nem para prová-la tal
Tem alguém que ficar triste:
União Nacional existe
Mas não união nacional.


E o Império ? Vasto caminho
Onde os que o poder despeja
Conduzirão com carinho
A civilização cristã,
Que ninguém sabe o que seja.


Com directrizes à arte
Reata-se a tradição,
E juntam-se Apolo e Marte
No Teatro Nacional
Que onde era a inquisição.


E a fé dos nossos maiores?
Forma-se impoluta o consórcio
Entre os padres e os doutores.
Casados o Erro e a Fraude
Já não pode haver divórcio.


Que a fé seja seja sempre viva.
Porque a esperança não é vã!
A fome corporativa
É derrotismo. Alegria!
Hoje o almoço é amanhã.

ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR

António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular ...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está tudo bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
....................................................
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
o sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh,  c´os diabos  !
Parece já choveu ...
.....................................................
Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho,
Nem sequer sozinho ...


Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.


Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé
Mas ninguém sabe porquê.


Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.

sábado, 1 de janeiro de 2011

010-ANO NOVO

010-Começo o ano 2011 com uma citação do nosso maior poeta:
                            
"Jamais haverá ano novo, se continuares a copiar os anos velhos"

 Luís de Camões