sábado, 12 de dezembro de 2015

1724 - «CONTENTE NUNCA ESTOU» REINALDO FERREIRA

1714

«CONTENTE NUNCA ESTOU»

Contente nunca estou; feliz não sei
Se existe alguém ou neste mundo ou noutro mundo.
Vou para o Nada,  sou do Nada oriundo,
E entre dois Nadas  desventura é Lei

Da cobarde esperança emancipei
A previsão do meu destino imundo.
Sou consciente do mal em que me afundo,
E consciente do mal continuarei.

Nem revolta me fica, apenas pressa
De me tornar por fim parada peça
No cósmico rolar nefasto e louco.

Depois quero dormir um sono enorme...
Que para uma aflição que nunca dorme,
A Morte, temo bem que seja pouco.

REINALDO  FERREIRA






sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

1713 - «A FERNANDO PESSOA«

1713

           A FERNANDO PESSOA
                   (ELE MESMO)

Cada verso é uma esfinge ter falado.
Mas quanto mais explícito  ela o diz,
Mais tudo permanece inexplicado
E menos de apreende  o que ela quis.


Erra um sussurro, tão etério e alado
Que nem mesmo silêncio  o contradiz.
E o ouví-lo, ou ávido ou irado
Na busca dum segredo sem raíz,

É como se em pensar -- um descampado --
Passasse fugitiva e intensamente
O Tempo todo inteiro projectado

E a sombra ali marcasse, na corrente
Do nada para o nada, inda passado
E já futuro, na ficção do presente.

REINALDO FERREIRA 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

1712 - »AFOGADO NO RIO LEÇA« EGITO GONÇALVES

1712

AFOGADO NO RIO  LEÇA

Vogavas entre duas águas com o corpo torcido
e a corrente impedita-te, vagarosamente, para a foz.
O coração batia mas já não respiravas;
a morte instalava-se no teu corpo\ molhado.
Devagar montava a máquina dos sonhos...
devagar armava-te as futuras asas.

No mar afundavam-se os símbolos da tarde;
enevelado, sem poesia, asfixiavas,
descendo  o rio em direcção à noite,
descendo o rio em direcção  à liberdade. sentou-se 

As unhas violácias, os cabelos flutuando, 
o sangue estrangulado, a fome liquifeita...
Então, como a um menino, alguém te conduziu para a
                                                          (margem relvada.
A Morte sentou-se a ver os  trabalhos da respiraração
                                                                  [artificial,
depois disse-te «Adeus», acenou-te «Até breve»,
e aproveitou a ambulância que te levava ao hospital
para ir mais depressa à sua vida.

EGITO GONÇALVES



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

1711- »SONETO« CARLOS DE OLIVEIRA

1711

                     SONETO

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

                   (Colheita perdida, in Poesias, 2ª.ed. revista)

CARLOS DE OLIVEIRA

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

1710 FOTOS DIVERSAS

1710
FOTOS DIVERSAS
Foto: Find Your Happy Place by Rick Parchen: https://goo.gl/Ts7Qzs #travel

1709 "PIERRROT BÊBEDO" FERNANDO PESSOA

1709

III  /   PIERROT BÊBEDO

Nas ruas da feira,
Da feira deserta,
Só a lua cheia
Branqueia e clareia
As ruas da feira
Na noite entreaberta.

Só a lua alva
Branqueia e clareia
A paisagem calva
De abandono e alva
Alegria alheia.

Bêbeda branqueia
Como pela areia,
Nas ruas da feira,
Da feira já deserta,
De sombra entreaberta,

A lua baqueia 
Nas ruas da feira
Deserta e incerta....

"A POESIA ORTÓNIMA"

FERNANDO PESSOA


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

1708 «ESTADO DE ALMA» FERNANDO PESSOA

1708

ESTADO DE ALMA

Inutilmente vivida
Acumula-se-me a vida
Em anos, meses e dias;
Inutilmente vivida,
Sem dores nem alegrias,
Mas só em monotonias
De mágoa incompreendida...

Mágoa sem fogo de vida
Que a faça viva e sentida;
Mas a mágoa de mãos frias
E inaptas para arte ou lida,
Nem pra gestos de agonias
Ou mostras de alma vencida.

Nada: inerte e dolorida,
A minha dor se extasia
Por não ser, e tem só vida
Para em torno a noite fria
Sentir vaga e indefinida...
                        
                                (18-1-1910)

FERNANDO PESSOA